terça-feira, março 27, 2007

A menina que olhava as paredes

Em casa dos meus pais havia muitas pinturas. Em parte, é porque minha mãe provem de uma família dedicada à arte... Por isso havia quadros bonitos e feios, clássicos e abstractos, velhos e novos a cubrir as paredes da casa toda.
E já me deram tantos bons momentos... Lembro-me de passar horas, quando era criança, a contemplar aquela enorme paisagem marinha... O barco a tremer entre as ondas, o céu cor de cinza, as águas escuras. E eu a imaginar quem viajava naquele barco, para onde ia e se sentia medo da tempestade que estava quase para começar. Quantas vezes quis saber o que acontecia depois naquela história!
Mas os quadros que mais mexiam (e mexem) comigo eram um casal de pinturas pequenas que já estava na parede quando eu nasci. A primeira representa uma velha a ler um livro, os detalhes desenhados com capricho, com tanto cuidado que até quase se podem ler as palavras das páginas. Era uma bruxa? Uma freira? Uma mulher a rezar? Nunca o soube, mas não consigo esquecer seu olhar cheio de atenção, os dedos tortos pela artrite, o gesto severo dos lábios finos.
No outro quadro há um velho numa gruta, meio escondido entre a bruma. Vestido com roupas compridas, careca, a barba branca, os olhos cansados, parece vir ao nosso encontro para dar quem sabe que mensagem secreta. O fundo, escuro, destaca ainda mais a sabedoria do seu olhar inquietante.
E nunca soube o fim daquelas histórias.

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