sexta-feira, setembro 28, 2007

Nova etapa

Chegou o outono... A vizinha já arrumou todas as botas de inverno para levá-las ao sapateiro e guardou com peninha as sandálias no armário.
Com o verão lá se foram o calor, a preguiça, as camisolas de alcinhas, os kimonos curtos, o prazer da brisa no pescoço... Mas também as pressas, o atravessar a cidade de um lado até ao outro carregada de livros e a pressão dos pais das crianças que acham que uma explicadora pode fazer milagres.
Agora a vizinha olha para o armário com uma mistura de saudades e alegria. Porque a nova etapa, a mudança definitiva, chegou. Agora tem tempo e espaço mental para enfrentar o último ano, para deitar quinze minutos depois do almoço, para combinar com os amigos, para estudar línguas (bom, isto último talvez ainda não, mas ela gosta de pensar que sim).
E como ela está a gostar da nova etapa... Chefes dos que aprender muito, bom ambiente de trabalho, um horário que não é mau demais... E uma farda branca absolutamente horrorosa que a chefa tenciona trocar por uma cor-de-rosa...
Mas quem disse que a vida é perfeita? xDD

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terça-feira, setembro 18, 2007

Outono interior

Sentada à turca sobre uma almofada no tapete, a vizinha ouve Yoshida Brothers enquanto lê Eça de Queiroz. É de novo a tranquilidade depois da tormenta; é a felicidade simples de ter uma almofada grande e macia e um copo de chá ao lado, um bom livro e boa música para esquecer o mundo.
O telefone toca. A vizinha atende, zangada com aqueles que ousam tirá-la do seu descanso. É uma companheira da faculdade, a perguntar como vai no novo emprego. Ela explica que adiaram a data de começo porque o chefe tá doente com qualquer coisa contagiosa e que aproveita estes dois dias para descansar. Fazem fofoca dos companheiros. Criticam os professores. Combinam para trocarem uns livros. A vizinha desliga e atira o telemóvel para o canto mais remoto do sofá.
Cinco minutos e o telemóvel toca de novo. A vizinha se estica para ver quem é. Ele. Coloca uma almofada sobre o aparelho e ameaça com asfixiá-lo se continuar a atrapalhar. Volta ao seu livro enquanto bebe um gole de chá.
Cansou das aventuras, dos jogos, dos homens que se fazem de interessantes, dos que fingem ter conversa para conseguir o que querem, dos que nem sequer fingem porque se acham cativadores, das mentiras que eles chaman de sedução.
O livro sobre os joelhos, sentada à turca sobre a almofada, os pés descalços e a alma em paz, a vizinha regressa ao mundo dos Maias e não tenciona voltar até não ter aprendido uma ou duas coisas.

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